terça-feira, 10 de maio de 2011

Epigramas


O REINADO SOCIAL

Todo empáfia, jurava o André barbeiro,
Numa arenga a esvurmar sabedoria,
Que o tempo venturoso ainda viria
Do reinado social no mundo inteiro.

Ouvindo o belo sonho, tão fagueiro
O pasmado freguês, numa alegria,
Pergunta se está perto o grande dia,
Se ao menos o conhece pelo cheiro.

- Bem longe! – diz o Fígaro eloquente.
Talvez milhares de anos. Quando a gente
Tiver toda por norma o doce amor!...

O cliente afrouxou no seu prazer.
- É tarde!... Quando isso acontecer,
Mande-me aviso a casa, por favor?


DILETANTISMO

Tal como a Ciência, a Fé te inspira horror;
Andas cantando pois, aqui e ali,
A aparência formosa, a suave cor…
Um fraco, em suma. Tenho dó de ti.

Mas não proclames com sorrir perverso
Qua a arte mais sublime de viver
É errar à superfície doo Universo,
Sem destino, ao de leve, por prazer.

O diletante mais feliz que o crente?
Superior ao sábio e a toda a gente
Que procura a Verdade? Tu treslês!

Que ao certo nada saibas – grande mal!
Mas exaltar a dúvida por ideal…
É mais que cepticismo: é insensatez.


EXEGESE EVANGÉLICA

Para Londres no rápido viajavam
Um presbiteriano e um metodista.
E, com a Bíblia à vista,
Sobre um texto divino disputavam.

"Se na face direita alguém te bate,
Oferece-lhe a esquerda" era a lição
Que gerava a questão,
Já séria como o fumo de um combate.

O literal sentido preconiza,
Convicto, o metodista; o outro rejeita
A difícil receita;
E em vez de surdir luz, cresce a geriza.

Então, para apressar o desenlace,
Zás! o presbiteriano no colega
Um bofetão pespega,
"Vamos", diz-lhe, "apresenta-me a outra face!"

Pronto! O sequaz da letra lhe obedece
E outro tapa recebe, desabrido;
Mas não se diz vencido:
O Evangelho ali está e o favorece.

"Com a mesma medida que empregares
Serás medido", cita. E tão do imo
Lhe torna o duplo mimo
Que um canino lhe arranca e dois molares!


PELO SEGURO

Pouco antes de expirar, a pobre velha
Chama o filho, um magnata protestante:
- Vem cá, meu Melanchthon, aconselha
Tua extremosa mãe agonizante.

Como tu, rebentei o vil grilhão
Da obediência a Roma e seus enganos:
Como tu, reneguei a tradição
E adopto a nova ideia há muitos anos.

Mas agora vacilo. A hora extrema,
Compreendes, meu Melanchthon, é tão grave!
Dize, meu filho, resolve este problema:
Qual é o credo melhor, do céu a chave?

E o mestre, humilde, enfim, e digno e forte:
- Para esta vida, mãe, é uma doçura
O credo da Reforma. Para a morte…
A religião romana é mais segura.


ESPÍRITOS

Duma vez, na sessão de espiritismo,
Lembrou-se um pobre pai de perguntar:
- Meu filho, que em Coimbra anda a estudar,
Ficará bem no exame? Nisto eu cismo.

Depois de um certo espírito invocar,
O médio – o padre lá desse magismo –
Caiu num furibundo convulsismo
E, espumando, ladrou: - Sim! Vai ficar!

É chumbado o rapaz. Aceso em ira,
Larga o pai contra o vate: - Biltre imundo!
Que o rebento! Burlão! Voz da mentira!

E o médio volve então, com dó profundo:
- Não fui eu, meu senhor! A mim se vira?
Bata lá nessas almas do outro mundo!


VOCAÇÃO PERDIDA

Às vezes a avelha que vive sozinha
No triste casebre que está ali fronteiro,
Recolhe o bichame já perto à noitinha,
Vai dar um passeio com ar prazenteiro.

As mãos entretidas a fazer a meia,
O nariz adunco farejando em volta,
Faz quase e revista cá de toda a aldeia,
Como um comandante revistando a escolta.

Quando em seu caminho, com delícias dela,
Encontra pessoa da mesma feição,
Passa tempo infindo dando à taramela
Nas bisbilhotices da murmuração.

Remexe o segredo das vidas de todos,
Do facto mais simples faz crime graúdo,
Inventa notícias de escândalo, a rodos,
Deturpa, transforma, põe veneno a tudo!

Se ouve um sino ao longe tocando a finados,
Conta à sua amiga quem foi que morreu,
Diz o testamento do desventurado
E até os encargos com que faleceu.

Se é nalguma moça que se fala então,
Marca logo o dia do consórcio dela,
Vestidos e dotes… dá mesmo a razão
Porque ela não casa já como donzela.

Fonte inexaurível, cesto imenso e roto
De escuras novelas, essa velha moira!
Traz a freguesia sempre em alvoroço,
Sempre a língua em riste como uma tesoira.

Quando eu vejo, às vezes, passar a megera,
Farejando em volta, semeando a peta
Murmuro entre dentes: “Ah, quem te fizera
Redactor do ‘Diz-se’ de qualquer gazeta”


O ALPENDRE

Passeando no jardim, sorrindo amores,
Ela pediu ao noivo que mandasse
Fazer um grande alpendre que abrigasse
Das nevadas da Inverno tantas flores.

O noivo, pouco atreito a vãos temores,
Logo lhe respondeu que não receasse
Que o Inverno em seus frios apagasse
Dessa querida Flora as lindas flores.

- Ó filho, mas o alpendre? – Já está feito.
- E é grande? – Muito grande. Abrange um céu.
O mar podia ali fazer seu leito.

- Não é preciso tanto, penso eu…
- Sempre é melhor o excesso que o defeito.
- E onde está esse monstro? – O teu chapéu!


O FIM DO MUNDO

Não era mu sujeito o velho Ançã,
Mas era dum desleixo mesmo incrível!
Tinha o sestro ruim, incorrigível
De deixar tudo – tudo! – “pr’amanhã”.

Um dia, enfim – que a vida tem um termo –
O velho viu a morte aproximar-se.
Disseram-lhe: - era bom o confessar-se…
Não acha? Como esteja assim enfermo…

Mas ele contestou subitamente,
Repetindo o estribilho idolatrado:
- Pr’amanhã! Eu não penso ser urgente…

- É que (torna em voz doce, ao moribundo
Um seu compadre e amigo dedicado)
Anunciam para hoje o fim do mundo!

- Jesus! Algum cometa vem aí
Turrar no nosso globo? Está provado?
Verdade? É o fim do mundo? – É; para si…


O QUARTO DOS… SÁBIOS

Ao desdobrar da noite um mendigo estrangeiro
Foi bater ao portal duma casa de aldeia.
Recebeu gasalhado e partilhou da ceia:
Comeu alarvemente! Bebeu como um sendeiro!

Já finda a refeição, começou-se a rezar;
E então o peregrino, em ânsias, descontente,
Maldisse as tradições daquela santa gente
E deu vivos sinais de querer descansar.

- Mais non! E ergue-se audaz, Ce n’est pas ma croyance…
- Não quer ouvir rezar? – Moi, je suis de France! -
Apontaram-lhe o céu. – Pas de dieux! – e rugia.

- Joaquim! – ordena logo o patrão a um criado,
Leva já para o quarto este endemoninhado.
- Que quarto? – O dos ateus. Além, a estrebaria.


ELOGIO DA CIÊNCIA

Discutiam-se com certa impaciência
Os resultados dum recente invento.
Quando o doutor falou, tudo pôs tento.
O bom Galeno enalteceu a Ciência:

- É rainha, Senhores, e omnipotente!
Devassa oso Céus, conquista a terra e o mar!
Nada escapa ao fulgor do seu olhar,
Nem mesmo a vida de qualquer semente!

- Melhor, doutor, a própria vida cria –
Aprova um dos ouvintes. – Outro dia,
Verifiquei a coisa numa feira.

Sublime máquina! Fiquei pasmado…
De um lado entrava feno, do outro lado,
Saía leite por gentil torneira…

Exclamação geral; a grei se anima:
- O nome? O nome dessa obra-prima?!
- Uma vaca leiteira.



PEGA, POMBA E PAVÃO

Na festa natalícia do pavão,
Foram a pega e a pomba visitá-lo,
Fazer-lhe saudações, dar-lhe um regalo,
Aceitar-lhe o jantar… e a exibição.

Mas, no regresso, a pega, que de tudo
Maldiz, pôs-se a zombar da ave real:
- Que esganiçada voz, sem cor nem sal!
Pois não era melhor que fosse mudo?

- Não reparei, responde-lhe a colega.
- Pois, amiga, bem duro é o seu ouvido!
Viu ao menos as patas do bandido?
Que fealdade! – Não vi. – Então é cega!

- Que quer? Aquelas plumas são tão belas,
Maxime a cauda, que de quando em vez
Abre em garrido leque de chinês!
Atenta às graças, esqueci as mazelas.



A VOZ DO PAPAGAIO

Trocista que ela é! E como bem imita
Do papagaio a voz! Com que graça infinita…

Chama-se… Não direi. É das bandas di lá,
Desse país do sol, das palmas, do sabiá.

Não conhecem ainda a partida brejeira
Que fez ao retratista a nossa brasileira?

Por mero desenfado, eis que num belo dia
Se vestiu muito “chic”, foi à fotografia.

O artista a recebeu com palavras de mel.
Sinhá foi pôr-se em frente à objectiva fiel.

O homem preparou com muitos rapapés
A “pose” da freguesa, o cenário, os clichés…

- Ar de riso, sinhá! Mais abaixo essa mão.
 Olhar mais natural. Bem. Agora, atenção!

Mas oh, impertinência! Oh, surpresa dum raio!
Ouviu-se de repente a voz dum papagaio.

Foi sinhá… Foi sinhá que simulou aquilo
Tão dextra que ninguém pudera pressenti-lo.

Era uma voz mofina a chocalhar piadas,
Numa arrelia atroz que dava alfinetadas…

Era uma troça azeda, um flutuar de rabos
Pregados por um clown pior que dez diabos!

Em meio do trabalho, o fotografo pára,
Olha em volta de si para ver se sonhara…

Finge a cliente também ficar muito inquieta,
Num sobressalto mau, num enleio pateta.

Declara que não quer tirar o seu retrato
Enquanto ali galrar um bicho tão gaiato.

O pobre homem, febril, vai aqui, acolá,
Remexe em tudo, grita: “O pé, loiro, dá cá!”

Abre o armário, a suar. Põe tudo em marmelada.
Remira o quarto, a sala. E nada! Sempre nada…

- Mas eu dou em maluco! E lembrar-me que, em casa,
De aves eu nunca tive a pluma duma asa!

Sinhazinha gentil: não compreendo isto,
Não sei do papagaio. É caso nunca visto!

Decerto já fugiu. É melhor, sinhazinha,
Voltar à sua “pose”. Assim. Sossegadinha.

Cuidado: agora vai. Um... Dois… Malandrão!
Gargarejou de novo a voz do passarão!'

Como é que tinha entrado o infame tagarela?!
Tudo estava fechado: a porta e a janela!...

Seria Satanás? Sim, como tinha entrado
O “perroquet” garoto, esse grande malvado?!

Infortúnio de artista… Em fúrias a tremer,
Corre pelo salão. Pára. Torna a correr.

Sonda, espreita, fareja. Em vão. Está doente,
Tem a cabeça à roda. As pernas, nem as sente.

A tal ave maldita, incoercível, feroz,
Parece uma quimera, uma sombra com voz.

Para maior pesar, despede-se a sinhá.
Diz que se vai embora e que não voltará.

- Não vá zangada, não? Volte. Sou inocente,
Estas cousas enfim, que acontecem à gente.

- Pois seja. Voltarei. – Quando, Dona Leontina?
- Quando você matar essa ave mofina.

Foi-se. O artista quase teve um desmaio…
Quando veio a saber quem era o papagaio.

E um dia viu sinhá, que, a rir, lhe perguntou:
- O pássaro, o Sr. ainda o não matou?

- Vive ainda, o burlão. Não o posso matar.
Quando lá for sinhá, lá o há-de encontrar.

- Não o pode matar? – Não devo. – Isso é mau!
- É mauzinho, não nego… É pássaro bisnau!

- Pois, daguerreotipista, assim não vou lá.
- O pé, loiro, dá cá…

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